Você já ouvir falar em gamification? Se ouviu, sabe mais ou menos do que se trata. O gamification aplica ferramentas e métodos típicos de jogos – de tabuleiro, videogames e outros – em um contexto fora do jogo em si. Esse contexto pode ser educacional, vocacional e, claro, profissional – inclusive na área gerencial.

O objetivo do gamification é elevar o engajamento das pessoas que são enquadradas dentro do jogo, envolvendo a todos, estabelecendo prêmios, disputas, conquistas, desafios e elevando a motivação. Dentro de equipes, a eficácia dessa ferramenta é particularmente alta. Mas a grande questão é: como aplicar o gamification na gestão de pessoas?

O gamification é capaz de despertar reações e manifestações naturais em colaboradores, tais como:

Socialização;

Aprendizado;

Domínio de técnicas;

Competição;

Colaboração;

Autorrealização;

Comunicação;

Altruísmo.

Geralmente, jogos possuem um funcionamento baseado em uma meta – um objetivo central que tem de ser atingido pelos jogadores e equipes envolvidos. No contexto empresarial e gerencial, é o mesmo: departamentos e empresas possuem sempre metas a atingir.

Diga-se de passagem, a grande maioria dos jogos tradicionais, de tabuleiro ou cartas, ou mesmo videogames, possuem traços que reproduzem as relações humanas, o cotidiano, nossos problemas, uniões e conflitos. O jogo é percebido pelas pessoas, ainda que inconscientemente, como um resumo da própria natureza humana. Por essa razão, o gamification ganhou e ganha espaço em empresas, escolas, grupos, comunidades e até mesmo entre governos. Ignorar esse poder quando nossa função é, sobretudo, gerenciar pessoas, seria um enorme equívoco.

Mecânica do gamification

A base são jogos que já conhecemos desde crianças, mas para entender como essa ferramenta se aplica em nível gerencial, é preciso repassar um pouco sobre como é a mecânica dos jogos e como ela pode criar valor no campo empresarial. Bem, dentro da mecânica de qualquer jogo, é possível ressaltar dez aspectos principais e elementos:

Feedback rápido

O feedback é instantâneo em jogos, muitas vezes durante sua própria realização. O jogador, nesse caso o colaborador, tem uma boa ideia de como está se saindo durante todo o tempo, ao contrário de relatórios e métodos de gestão que deixam funcionários no escuro.

Transparência

Uma vez estabelecidas as regras, o jogo flui de forma transparente. Qualquer um pode protestar caso sinta que outros jogadores romperam o acordo inicial, ou pode lançar mão das regras para se proteger, ou até obter vantagem – tudo de modo direto e claro.

Metas

Como dissemos, todo jogo possui metas claras – um objetivo final e um lugar onde todos os competidores precisam chegar. Pense em um jogo como uma história – o desenvolvimento e o jogo em si geralmente atingem um clímax, que caminha para um final que já é esperado, mas que reserva algumas surpresas aos que chegam até ali. Essa é sua meta.

Níveis

Os jogos proporcionam um crescimento e avanço dos participantes durante sua própria realização, acalmando ânimos, provendo motivação e criando uma sensação de realização antes mesmo do final do processo.

Participação

Os jogos fazem com que todos sintam que de fato estão participando do processo – ninguém é colocado de lado e, em tese e segundo as regras, todos podem atingir as metas e evoluir.

Competição

Os jogos exaltam a competição e a concorrência, porém de modo controlado e saudável. Sujeitos às mesmas regras e chances, os participantes podem concorrer entre si sob os olhos de um juiz ou alguém que zele pelas condições igualitárias de cada um, prevenindo discussões e desentendimentos que são comuns em situações de competição ferrenhas.

Colaboração

O gamification também promove a colaboração. Mesmo quando gerentes e líderes não propõem a formação de equipes ou times dentro do jogo empresarial, muitas vezes funcionários criam colaboração e formam alianças, de modo a conseguir atingir as metas de maneira mais rápida e simples. Essas situações criam pares e grupos de alta produtividade em empresas e também melhoram o relacionamento em equipes.

Pontuação

Os pontos, ou a pontuação que é estabelecida na grande maioria dos jogos, é algo que traz uma sensação imediata de recompensa, concede feedback instantâneo e permite ao “jogador” a autoavaliação.

Aparecimento de comunidades

O gamification promove ainda o aparecimento de comunidades. Jogadores que se unem para trocar experiências e metodologias que utilizam para vencer e aprimorar-se dentro dos games. Em empresas, essa experiência cria relacionamentos, inclusive interdepartamentais, e auxilia na criação de uma sólida cultura empresarial.

Motivação

O gamification motiva, cria necessidades novas, promove a autorrealização e dá a colaboradores a sensação de que eles têm motivos para seguir adiante e crescer, dentro da organização e em suas vidas.

Claro, em termos específicos, os jogos podem ser desenhados de maneiras infinitas, basta lembrar a enorme variedade de jogos de cartas e tabuleiro que conhecemos na infância, assim como os jogos intermináveis de videogame, em diversas plataformas.

No contexto empresarial, entretanto, é preciso que esses jogos, qualquer que seja sua mecânica de funcionamento, sempre estejam em linha com padrões éticos da organização, seus objetivos e metas, e também em linha com as funções e incumbências dos profissionais envolvidos.

O mais importante é que as regras sejam claras (e poucas, se possível) e os critérios de pontuação ou evolução sejam democráticos e estejam previstos e aceitos por todos os participantes.

Muitas vezes, é melhor desdobrar a metodologia ou criar foco em departamentos específicos. Por exemplo, algumas empresas criam metodologias que avaliam o retorno em termos de receita, proporcional, que cada funcionário oferece. Contudo, exceto talvez por vendedores, esses dados são arbitrários: operários, advogados e outras profissões não têm muito como elevar sua “receita” do dia para a noite – o critério pode, assim, ser injusto e desproporcional.

Regras e juízes

Todo jogo precisa de regras e, no caso de experiências presenciais, como ocorre com o gamification em corporações, um juiz. É bom designar alguém, preferencialmente diferente do gestor, para que acompanhe a evolução de todos conforme as regras e, principalmente, possa resolver eventuais situações de incerteza e conflitos.

A pessoa a atuar como juiz deve ser sempre alguém que possa compreender e avaliar as regras do jogo. Geralmente, em países nos quais a formação em gamification ainda é algo raro como o Brasil, departamentos e profissionais de RH são os melhores para acompanhar tal desenvolvimento.

A isenção do líder, e sua posição como observador, permite que colaboradores atuem com maior liberdade para atingir os objetivos e metas estabelecidos.

Erros que as companhias cometem

O uso do gamification é algo poderoso para motivar e elevar inclusive a produtividade de equipes, mas há modos errados de fazê-lo e, infelizmente, muitas empresas aplicam jogos que acabam criando mais problemas do que promovendo soluções. Basicamente, três problemas afetam a maioria das experiências de gamification aplicadas como ferramentas de gestão:

Insucesso ao tornar a experiência algo personalizado

Com fórmulas prontas e jogos batidos, às vezes até mesmo infantis, além de disputas que geram mais estresse do que sensação de recompensa, gestores perdem seus funcionários e transformam o que deveria ser uma experiência inteligente e empolgante em algo não apenas maçante, mas também em outra tarefa aborrecida e sem foco.

O excesso de recompensas é também um grande problema

No Brasil, seja por questões paternalistas de origem trabalhista ou mesmo da valorização do mais fraco, tendemos a oferecer recompensas demais, prêmios para todos ou o infame “prêmio de consolação”. Dois problemas surgem nesse ponto: para o funcionário mediano, você acaba gerando a impressão de qualquer esforço, ainda que mínimo, é suficiente para levar a uma recompensa; para funcionários mais destacados e talentos, você cria a impressão de que não é preciso ser o melhor ou apresentar um bom desempenho para chegar ao topo, desmotivando-os.

Falta de engajamento no nível emocional

A estratégia de gamification é bem aplicada, mas não gera uma resposta emocional. O verdadeiro engajamento apenas ocorre quando um colaborador se sente emocionalmente ligado à empresa, a um projeto ou uma meta. Jogos excessivamente racionais e sem contexto podem gerar respostas negativas ou até mesmo disputas ferrenhas e acirradas entre funcionários, às vezes separando equipes e criando desavenças, ao invés de unir e aprimorar, como é esperado.

O gamification não deve ser algo imposto. Suas regras precisam ser claras, mas não ditatoriais. Não é tampouco uma brincadeira – tratar executivos ou trabalhadores como garotos em um playground pode até empolgar alguns poucos, mas ofenderá a maioria.

Siga o bom senso como líder e use jogos na gestão de pessoas, mas evite erros maiores com uma simples pergunta: como você se sentiria se tal jogo fosse proposto a você?

Mônica Hauck

Mônica Hauck*

*Diretora Executiva da Solides, empresa de Soluções em TI para Gestão Empresarial. Apaixonada pelo Desenvolvimento                      Humano, graduada e pós-graduada pela UFMG é também colunista do RHPortal, maior portal de RH do país. Pesquisadora               especialista em culturas políticas e organizacional, atualmente, desenvolve pesquisas e soluções inovadoras na área de Gestão, com foco em Gestão de Pessoas.