Leonardo Fares, presidente da Fumsoft, diz que é preciso voltar a pensar a longo prazo Foto: MAICK HANDDER/BHAZ

“Tirar o peso do setor público e descentralizar a gestão pública pelos diversos polos de Minas”;

“O Estado integrado por meio de três linhas estruturais de trens de alta velocidade”;

“Superar o racismo e o sexismo que estão na base das desigualdades sociais em Minas e no Brasil”

Sonhos? Quem vê nossa realidade dos dias de hoje, afogada no estrangulamento financeiro do Estado, na violência e em problemas crônicos na área de mobilidade e segurança, considera os cenários acima cada vez mais utópicos. Mas, para um grupo de pessoas ligadas à Sociedade Mineira de Software (Fumsoft), dar vida a propostas como essas não é um sonho. É um projeto concreto. Estas pessoas estão à frente do Minas 2050, projeto que, em sua fase inicial, está ouvindo pessoas sobre como elas esperam que esteja Minas daqui a 32 anos, ou seja em 2050. As frases acima são alguns dos sonhos que surgiram  nos 11 encontros já realizados.

“Esses sonhos, por si só, sintetizam o cenário de uma nova Minas Gerais, conectada com o que há de melhor no mundo, com uma infraestrutura moderna, uma gestão pública descentralizada e flexível, uma estrutura social que possibilite a geração de prosperidade, através do exercício da potencialidade de todos os cidadãos e um sistema de segurança pública de Primeiro Mundo. O sonho é grande, mas não é inatingível”, afirma o engenheiro Leonardo Fares Menhen, presidente da Fumsoft e idealizador do projeto, que está em sua fase inicial, de coleta dos depoimentos, que, em seguida, serão sintetizados em um documento a ser levado aos governantes.

Em entrevista ao Bhaz, Leonardo Fares explica como surgiu a ideia do Minas 2050 e como deverá ser sua implementação.

Qual é o objetivo do projeto Minas 2050?

A gente precisa criar um novo sonho para Minas. O que nós queremos ser em 2050? Queremos continuar produzindo minério? Queremos continuar sendo sede de siderúrgica? Queremos continuar mexendo só com agrobusiness? Nossos filhos vão continuar indo embora do Estado, para tentar a vida fora daqui? Eu sou de uma época em que a Praça Sete era um importante centro financeiro do Estado. Hoje, todos os bancos foram embora. Só sobrou o Mercantil. Foi-se também o comando das siderúrgicas, das mineradoras, das grandes empreiteiras, como a Andrade Gutierrez, do Pitágoras. Essa é a questão que a gente precisa discutir.

Por que isso aconteceu?

Houve uma falha no planejamento do Estado. Não sei exatamente quando isso aconteceu. O fato é que essa falha foi sendo amortecida, ano após ano, até chegarmos aos dias de hoje. Nosso PIB corresponde a 10% do PIB nacional há muitas décadas. Há muitos anos, é o terceiro e isso não muda. Com o passar do tempo, podemos cair para o quarto. Há um estudo em que, se você considerar alguns itens que compõem um ranking nacional, nossa situação não é boa. Em atratividade de investimento, somos o 7º; infraestrutura, 12º; segurança, 9º; solidez fiscal, 19º; potencial de mercado, 14º; inovação, 7º, e educação, 2º. Se você fizer uma comparação dessa situação, por exemplo, com nossa população, verá que o quadro é muito complicado.

Mas onde começou nosso decrescimento e por que esse processo não foi interrompido?

Não consigo enxergar. É uma boa pergunta. O fato é que, rigorosamente, pode-se dizer que o último governador que pensou o Estado do ponto de vista de seu planejamento foi Israel Pinheiro, no final dos anos de 1960, portanto, há cinquenta anos. Foi ele quem montou toda uma estrutura de atração de empresas para o Estado, via BDMG [Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais], Indi [Instituto de Desenvolvimento Industrial de Minas Gerais] e CDI [Companhia de Distritos Industriais]. É muito doido você pensar que o último grande investimento em infraestrutura feito na Região Metropolitana de BH foi o Aeroporto de Confins, lá nos anos de 1980. Hoje, nós estamos discutindo se vamos ou não fechar o Anel Rodoviário para caminhões, se a UPA vai funcionar, se o Estado vai pagar o 13º. Enquanto isso, a China está reconstruindo a rota da seda, que há mil anos a ligava ao resto do mundo; está construindo infraestruturas globais, como a ferrovia que vai ligar Madri a Pequim. Na África, os chineses estão construindo portos e ferrovias e conectando todas as áreas produtoras de minério e alimento que interessam a eles.

Aeroporto de Confins foi a última grande obra de infraestrutura feita na Região Metropolitana de BH, ainda nos anos de 1980 (BH Airport/Divulgação)

Por duas razões. A primeira é que, como trata-se de um sonho, é preciso tempo para ser implementado. A segunda razão é que temos que descolar esse projeto do momento atual, de crise. Temos que pensar em 2050. Se a gente não deixar de lado a crise financeira, a crise partidária, a gente não vai para frente. Vamos chegar a 2050 com a mesma cabeça que temos hoje.

Como chegar até lá?

O primeiro passo é fazer o que estamos fazendo: convidando pessoas a irem à Fumsoft expor qual seria o seu sonho para Minas em 2050. A etapa seguinte é discutir algumas diretrizes para se atingir esse sonho. Em seguida, vem o trabalho de sensibilizar as pessoas. Mas, a meta no momento é pensar Minas em 2050. Parece trivial, mas não é fácil retirar as pessoas da zona do conforto mental.

À frente desse projeto está a Fumsoft, uma instituição cujo objetivo é incentivar e apoiar a indústria de software no Estado.  Por qual razão a Fumsoft resolveu abraçar essa causa?

Porque a TI [Tecnologia da Informação] é a base do que estamos propondo. E sem a TI, você não tem a economia digital. Sem ela, o médico não irá para o seu consultório, você não fará seu trabalho jornalístico, o professor não entrará na sala de aula, você não passará na roleta do ônibus. Você também não irá almoçar, porque o vale refeição é um cartão eletrônico. Nem o governo irá recolher seus impostos. A TI é um insumo importante em qualquer que seja esse sonho.

Como fazer isso? Só com dinheiro?

Não há bala de prata. Isso passa por várias questões. Uma questão importante é a necessidade de criar sinapses [ligações] entre os atores existentes. É preciso fazer com que estes conversem entre si, uns com os outros. É preciso, também, fortalecer alguns eixos. O primeiro é o da capacitação, trabalhando de forma muito objetiva em todos os níveis. Temos que passar a ensinar programação às pessoas desde criança; temos que trabalhar a aproximação dos provedores da educação com as demandas das empresas, para que estas possam contratar profissionais já prontos. Temos, também, que mudar a cultura de nossos empresários. Um segundo eixo é o da geração de negócios. E, para gerar negócios, há uma porção de ações a serem implementadas. Uma delas é a junção de empresas, para termos empresas maiores. Temos também que resolver o problema das compras públicas, para que o poder público passe a comprar mais de empresas mineiras. Temos que resolver outro problema, também muito importante, que é o da internacionalização. É fundamental internacionalizar, porque esse setor não tem fronteiras. E quando você internacionaliza, significa que você está trabalhando segundo padrões internacionais. Assim, mesmo que você não exporte, o estrangeiro tem dificuldades de entrar aqui. Por fim, há o quarto eixo, igualmente relevante, que é o do marco regulatório, ajustando a legislação da cidade e do Estado para que fiquem mais atraentes aos grandes players internacionais. O que existe hoje é marco regulatório só para se cobrar impostos. Nada mais. Recentemente, a Amnazon resolveu fazer uma segunda sede nos Estados Unidos. Fizeram como se fosse edital. Eles disseram do que precisavam e  comprometeram-se a gerar um determinado número de empregos a quem provesse o que eles precisavam. Resultado: a sede está sendo disputada a tapa. Portanto, se a gente quer sair na frente, temos que atrair novos empreendimentos, temos que criar condições para isso.

MARCELO

Marcelo Freitas é redador-chefe do Bhaz